Em algum momento do projeto a pergunta apareceu, e era boa demais pra simplesmente ignorar: se a Iara descobre o nível de letramento da pessoa durante a conversa, por que não guardar isso pra próxima vez?
Os argumentos a favor eram fortes. Com o nível salvo, o próximo atendimento já começaria no caminho certo, sem precisar analisar nada de novo. Resposta mais rápida, menos processamento, uma experiência mais "personalizada". É o tipo de recurso que qualquer produto adoraria colocar no slide de apresentação.
A gente decidiu não fazer. O nível de letramento nunca persiste entre atendimentos. Cada conversa com a Iara começa do zero, como se fosse a primeira vez.
O trade-off que a gente escolheu de olhos abertos
A gente sabia exatamente o que estava abrindo mão nessa decisão. Personalização de verdade tem valor. Largar isso doeu, e ninguém no squad fingiu o contrário numa call de sexta à tarde discutindo o assunto.
Guardar o nível transformaria a Iara em outra coisa. Um número desses, gravado num banco de dados e associado a uma pessoa, para de ser uma leitura do momento e vira rótulo permanente. Isso pesa: informação de letramento pode constranger, limitar e até discriminar alguém, mesmo sem ninguém ali ter essa intenção.
Tem um problema mais simples também. A etiqueta ia errar direto. O jeito de escrever de alguém com pressa, cansado, mandando áudio dentro do ônibus lotado, não é bem "o nível" dessa pessoa. É só a mensagem daquele minuto. As pessoas mudam de contexto o dia inteiro, e um sistema que congela a primeira impressão erra pra sempre depois.
A gente não está classificando pessoas. A gente está adaptando o jeito de falar, conforme a mensagem de agora — amanhã, a Iara ouve de novo, do zero.
Onde a LGPD entra nisso
Quando a gente foi estudar a Lei Geral de Proteção de Dados, achou um princípio que já batia com o que a gente tinha sentido na prática, sem nem saber o nome disso: minimização. Coletar e guardar só o que é necessário pro serviço funcionar. O Leonardo até imprimiu um trecho da lei numa reunião, grifado, só pra mostrar que a gente não tinha inventado aquilo do nada.
E o nível de letramento não precisa ser guardado. Essa é a graça da arquitetura toda: a Iara redescobre ele em segundos, a cada conversa, só lendo a mensagem que acabou de chegar. Guardar seria criar risco pra proteger uma coisa que o sistema já sabe recalcular sozinho.
É isso que a gente quer dizer com "LGPD by design". A privacidade não foi um ajuste de última hora pra passar numa checagem. Foi decisão de arquitetura, tomada lá no começo, antes de existir qualquer linha de código do classificador. A forma mais segura de proteger um dado sensível é não ter esse dado.