A gente podia ter testado a Iara só entre a gente mesmo. Teria sido mais rápido, mais confortável, e completamente inútil.
Quatro estudantes que passam o dia inteiro programando não representam, nem de longe, as pessoas pra quem a Iara mais importa. A gente digita rápido, escreve "consultar fatura" sem pensar duas vezes, nunca travou na frente de um menu de atendimento na vida. Testar só entre a gente ia ser como revisar o próprio texto: o olho pula direto os erros que mais precisavam aparecer.
Daí a gente foi buscar quem estava por perto. E, por sorte, quem estava por perto formava o retrato perfeito do problema: a avó de um integrante da equipe, o avô de outro e o pai de um colega — cada um representando, sem forçar nada, um nível diferente de familiaridade digital. Cada teste aconteceu separado, em momentos diferentes, cada um na casa da própria família — mas a reação se repetiu. Os níveis do Inaf, que até ali eram só categoria dentro de um arquivo Python, viraram gente de verdade.
Observar, sem interferir
A regra que a gente se impôs foi a mais difícil de segurar: não ajudar. Nada de "clica ali", nada de "escreve assim". Se a Iara precisasse de tradutor humano do lado, o projeto inteiro já tinha falhado ali mesmo.
Observar gente de verdade usando o que você construiu é uma experiência que nenhuma métrica substitui. O painel mostra taxa de resolução e tempo médio por nível, números que a gente acompanha com orgulho, sim. Mas nenhum número mostra a diferença entre alguém respondendo com medo de errar e alguém respondendo à vontade, no próprio ritmo. Isso só dá pra ver olhando mesmo, ao vivo.
O avô avisou, antes de mandar a primeira mensagem: "não vou saber usar isso não." Vinte minutos depois, tinha trocado de plano sozinho.
Mesma Iara, três conversas em ritmos bem diferentes, nenhuma pergunta sobre escolaridade em nenhuma delas. O caminho Guiado confirmando com calma pra quem precisava de mais suporte, o Direto indo reto ao ponto com quem já tinha dito tudo de uma vez.
O que a gente levou desses testes
Primeiro: humildade. Parte do que a gente achava "óbvio" na conversa não era óbvio nem um pouco, e cada hesitação virou discussão no grupo e ajuste no sistema depois. Foi ali, aliás, que apareceu o "talvez" que travou tudo. Esse aqui já rendeu um post inteiro só pra ele.
Segundo: responsabilidade. Quando o teste é com a família dos próprios colegas de equipe, o projeto muda de peso na hora. Deixa de ser trabalho de competição e vira uma coisa que precisa funcionar de verdade pra gente que a gente conhece e gosta, e pros milhões de brasileiros que eles representam. Depois de ver a Iara conversando com a avó de um amigo, "78% tiveram desempenho baixo ou médio em tarefas digitais" não era mais só uma estatística: era a avó satisfeita, resolvendo a própria fatura sozinha.